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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Urubus sobrevoam aterro de São Mateus e levantam preocupação com saúde pública

Quem vive ou circula pelas proximidades da Central de Tratamento de Resíduos Leste (CTL), em São Mateus, na zona leste de São Paulo, convive diariamente com uma cena que chama atenção: grandes grupos de urubus sobrevoando a região do aterro sanitário.

A presença das aves se tornou um dos principais pontos de preocupação de moradores que vivem no entorno da área de disposição de resíduos. Além do mau cheiro e da presença relatada de insetos e roedores, os urubus passaram a fazer parte da paisagem de quem mora próximo ao aterro, levantando questionamentos sobre as condições ambientais da região e os possíveis reflexos para a saúde pública.

A preocupação ganha ainda mais força diante da discussão sobre a ampliação do aterro sanitário, que atualmente se aproxima do limite de sua capacidade, e da possibilidade de implantação de uma unidade de recuperação energética para o tratamento dos resíduos.

Urubus e saúde pública
A presença de aves em áreas destinadas à disposição de resíduos não é, por si só, uma prova de contaminação ou de risco sanitário. No entanto, a grande concentração desses animais chama atenção porque está diretamente relacionada à existência de uma área com enorme quantidade de resíduos orgânicos e outros materiais descartados diariamente.

Para os moradores, o problema não se resume à imagem dos urubus sobrevoando casas e ruas. A questão envolve o tipo de ambiente que está sendo criado no entorno do aterro e quais medidas são adotadas para impedir que animais sejam atraídos pela disposição dos resíduos.

A preocupação também se soma às reclamações sobre odores desagradáveis e a presença de outros animais considerados indesejados, como insetos e ratos.

É justamente por isso que a discussão sobre a ampliação do aterro ultrapassa a questão ambiental e passa também pela saúde e qualidade de vida da população que vive no entorno.

Ampliação do aterro preocupa moradores
O Aterro Sanitário Central de Tratamento de Resíduos Leste está próximo do limite de sua capacidade e existe a previsão de ampliação da estrutura.

O projeto é alvo de críticas de representantes da população e de autoridades. A deputada federal Juliana Cardoso (PT-SP), por exemplo, protocolou representação junto ao Ministério Público questionando a ampliação e apontando possíveis impactos ambientais.

Entre as preocupações está a possibilidade de avanço do projeto sobre uma área considerada de preservação de ecossistemas naturais. Segundo a parlamentar, levantamentos apontam que a intervenção poderia resultar na retirada de até 63 mil árvores.

“Os estudos falavam em 10 mil, mas, com base em levantamentos e estudos, o número pode ultrapassar 63 mil árvores. Mesmo que houvesse compensação, nada substitui uma mata nativa madura, que leva décadas para se regenerar. Não é possível aceitar o desmatamento de uma floresta urbana em plena crise climática global”, afirma Juliana Cardoso.

A parlamentar também critica a possibilidade de instalação de um incinerador de resíduos e afirma que a medida poderia trazer riscos à qualidade do ar e à saúde pública.

O que diz a Ecourbis
A Ecourbis Ambiental, responsável pela operação do aterro, afirma que a ampliação está prevista dentro das políticas públicas de gerenciamento de resíduos e que o projeto atende às exigências legais e ambientais.

Sobre a retirada de árvores, a empresa afirma que o projeto prevê compensação ambiental com o plantio de quatro mudas para cada árvore removida.

Em relação especificamente às reclamações sobre mau cheiro, insetos, ratos e a presença de urubus, a Ecourbis afirma: “O local conta com programas permanentes de controle da qualidade do ar e de vetores, que incluem o recobrimento diário dos resíduos, a compactação controlada, o monitoramento meteorológico e o uso de produtos neutralizadores, além de técnicas específicas para o afugentamento de aves e outros animais. Essas medidas asseguram uma redução significativa de odores e de atração de animais, embora, em situações pontuais, condições climáticas específicas — como ventos, temperatura e umidade — possam ocasionar a percepção momentânea de odores semelhantes aos que ocorrem em ambientes domésticos, onde resíduos são mantidos antes de sua disponibilização à coleta. A presença eventual de urubus em áreas próximas é natural e comum em zonas de disposição de resíduos, mas o recobrimento rápido e as ações de manejo ambiental mantêm o controle da fauna e evitam riscos à vizinhança”.

A empresa também afirma que não há risco de contaminação do solo, da água ou do ar em razão das atividades realizadas no aterro.

Segundo a Ecourbis, antes da disposição dos resíduos, a área recebe sistemas de impermeabilização e, durante a operação, são utilizados mecanismos para captação e tratamento de chorume e biogás.

A concessionária afirma ainda que o biogás captado é tratado e transformado em energia elétrica e biometano, utilizado no abastecimento da frota de coleta.

Uma paisagem que preocupa
Apesar das explicações apresentadas pela concessionária, a presença dos urubus permanece como um dos elementos mais visíveis da relação entre o aterro e o ambiente ao redor.

Para quem vive na região, a imagem de dezenas de aves sobrevoando constantemente a área reforça a percepção de que existe uma grande concentração de resíduos nas proximidades das áreas residenciais.

A discussão, portanto, não envolve apenas a necessidade de São Paulo encontrar soluções para as milhares de toneladas de lixo produzidas diariamente. Envolve também qual será o impacto dessas soluções sobre as comunidades que convivem diariamente com os aterros, seus odores e a presença de animais atraídos pelos resíduos.

Enquanto o processo de ampliação continua sendo discutido, moradores e representantes públicos defendem que sejam avaliadas alternativas como aumento da reciclagem, compostagem e fortalecimento das cooperativas de catadores.

A preocupação central permanece: até que ponto a expansão da estrutura de tratamento de resíduos pode ser realizada sem comprometer o meio ambiente, a qualidade de vida e a saúde da população de São Mateus e dos bairros vizinhos?

Reportagem: Fernando Aires. Foto: Divulgação.

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