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sexta-feira, 6 de março de 2026

Grupo de Apoio à Adoção Laços de Ternura, de Santo André, comemora 25 anos

Entrevista com Maria Inês Villalva, coordenadora do Grupo de Apoio à Adoção Laços de Ternura, conduzido pela Federação das Entidades Assistenciais de Santo André – FEASA, sobre a instituição e a adoção no país 

Como surgiu o Grupo Laços de Ternura? Qual é a região que ele mais atende?
Maria Inês: O Grupo surgiu da preocupação com as crianças e adolescentes acolhidos institucionalmente que aguardavam para serem adotados e da falta de um serviço de preparação dos adotantes. Nosso Grupo atende apenas pessoas que residem no município de Santo André -SP, mas existem vários grupos que atendem a capital e outras cidades do interior.

Qual é hoje o panorama da adoção no Brasil e quais são os principais desafios enfrentados por crianças e adolescentes que aguardam uma família? Hoje o Brasil reúne um grande número de pretendentes a adoção, mas o perfil desejado pela maioria e por crianças pequenas e sem problemas de saúde. Em contrapartida existem muitas crianças maiores, adolescentes, grupos de irmãos e alguns com deficiência ou necessidades especiais que nem sempre combinam com o perfil desejado pelos adotantes. Um outro fator que deve ser considerado é o desaparelhamento do poder judiciário que, pela escassez de recursos humanos, geralmente tornam  os processos morosos, prolongando a espera pelo encontro entre os que querem adotar e os que desejam ser adotados. 

Como funciona, de forma prática, o processo legal de adoção no país, desde a inscrição no Judiciário até a sentença final? Os interessados devem procurar o Fórum da Comarca onde residem para solicitar a habilitação para a adoção. Para essa habilitação é necessário a entrega de alguns documentos, participação nas entrevistas com os técnicos do Fórum (psicólogo e assistente social) e participação em uma formação sobre adoção. Uma vez habilitados, aguardarão o chamado do Fórum para apresentação da criança ou adolescente dentro do perfil traçado pelos pretendentes. Inicia-se então a etapa de aproximação, onde os pretendentes realizam visitas no acolhimento onde a criança se encontra, e com ela poderão realizar passeios. Havendo êxito nessa etapa de aproximação, os pretendentes podem passar a conviver com a criança, mediante o Termo de Guarda Provisória e superado esse estágio de convivência, tendo a destituição do Poder Familiar dos pais biológicos, é concedida a sentença da adoção, com a nova certidão de nascimento onde passa a constar o nome dos adotantes como pais e a troca do sobrenome da criança.  

Quais são os mitos mais comuns sobre adoção que ainda dificultam que muitas crianças encontrem um lar? A cultura da adoção já foi mais perversa, pois colocava o filho adotivo como filho de segunda categoria. A legislação atual equipara o filho adotivo com o biológico, assegurando-lhe os mesmos direitos, mas ainda assim, constatamos que ainda existem preconceitos que precisam ser derrubados, como: Filho adotivo é filho problema; vem cheios de vícios, são revoltados, não são gratos etc… Essas afirmações desqualificam a adoção e rotulam crianças e adolescentes que carregam histórias de sofrimento, pois normalmente são vítimas do abandono, de maus tratos, de exploração sexual ou negligência. 

O que muda emocionalmente na vida da criança ao entrar em uma nova família e como os pais podem ajudar nesse período de adaptação? Ao ingressar na família adotiva a criança, dependendo da idade, precisa de um tempo maior para entender seu papel de filho e como funciona a vida no novo lar. Para que isso aconteça, os pais devem estar preparados para compreender algumas reações e comportamentos e contribuírem para a construção de laços afetivos com a criança. Só depois de se sentir verdadeiramente aceita e pertencente à família, a criança encontrará o seu equilíbrio emocional. 

Por que ainda existe uma grande diferença entre o perfil das crianças disponíveis para adoção e o perfil mais buscado pelos pretendentes? Existem pretendentes que desejam o bebê porque querem vivenciar todas as etapas do seu crescimento. Existem outros que acreditam na dificuldade de vinculação com uma criança maior ou até aqueles que temem que quanto mais velha a criança mais problemas ela acumula. Os grupos de irmãos que, preferencialmente, devem se manter na mesma família adotiva, nem sempre são aceitos porque geram mais gastos e a família nem sempre têm condições. As crianças com deficiência são geralmente preteridas por não se enquadrarem no padrão do “filho ideal” e pelo fato dos pretendentes não acharem que darão conta de atender suas necessidades. 

Como grupos de apoio à adoção, como o Laços de Ternura, contribuem para preparar famílias e fortalecer vínculos durante e após o processo? A preparação se dá por meio de encontros reflexivos, palestras, técnicas de dinâmicas de grupo e trocas de experiências entre os pretendentes adotivos e aqueles que já adotaram. O grupo Laços de Ternura conta com Psicóloga, advogada, assistente social e psicopedagoga que conduzem os encontros e também realizam atendimento individualizado, quando necessário. 

Qual é a importância do acompanhamento psicológico antes, durante e depois da adoção para todos os envolvidos? O acompanhamento psicoterapêutico é fundamental em todas as fases da adoção, por contribuir com a minimização ou solução dos anseios e temores de todos os envolvidos. 

Como abordar a história de origem da criança de maneira respeitosa e saudável dentro da família adotiva? O conhecimento da origem é um direito do adotado. A história deve ser contada gradativamente, de acordo com o grau de compreensão da criança. Para facilitar a narrativa os adotantes podem utilizar histórias infantis que abordam o tema; criar a história do filho com personagens que lhe agradam; ensinar a criança a rezar pelos pais biológicos ou  resgatar vários super heróis que foram adotados, enfatizando sempre que o filho adotivo é o filho escolhido, o que não acontece com os filhos biológicos. 

Que orientações você daria para quem está pensando em adotar, mas ainda sente medo ou insegurança? Antes de se lançar para adoção, é interessante ler livros e assistir filmes  que abordam o tema; seguir famílias adotivas e profissionais que falam sobre adoção nas redes sociais; participar de palestras que tratam do assunto e participar de um grupo de apoio à adoção, mesmo que não tenha certeza do desejo de adotar. A editora Juruá, por exemplo, tem muitos livros sobre adoção.  

Como a sociedade pode ajudar a reduzir o preconceito e ampliar a cultura da adoção tardia, de irmãos ou de crianças com necessidades específicas? O preconceito pode ser combatido com exemplos de adoções, que em sua maioria, são bem sucedidas, com comparativos de filhos biológicos que apresentam problemas comportamentais. Um exemplo clássico é o da Suzane Von Richthofen, filha biológica que vivia em ótimas condições e participou da trama que culminou com o assassinato dos pais. É preciso enfatizar que a herança cultural muitas vezes se sobrepõe à herança genética, por isso a consanguinidade não é garantia de êxito nas relações entre pais e filhos. 

Quais políticas públicas ou melhorias no sistema poderiam tornar os processos mais ágeis e humanizados? O aparelhamento do Tribunal e Justiça, com servidores competentes e vocacionados (incluindo Magistrados, Promotores e Defensores Públicos); divulgação na grande mídia sobre o direito da genitora entregar seu bebê para ser adotado, por meio da chamada “Entrega Responsável”; maior investimento para qualificação  dos acolhimentos institucionais e sua gradativa substituição pelos acolhimentos familiares, por meio do Programa de Família Acolhedora; obrigatoriedade dos cursos de direito terem em sua grade curricular o Estatuto da Criança e do Adolescente, para formação de advogados que estejam aptos a atuar nos processos de adoção. 

Existe algo que você gostaria de dizer diretamente às crianças e adolescentes que hoje vivem em acolhimento institucional? Quando as chances de adoção forem pequenas, vocês devem se agarrar a todas as oportunidades que surgirem para que possam abraçar uma carreira, construir sua própria família e viver com dignidade. Caso as oportunidades não apareçam, vão em busca delas e acreditem no potencial de vocês. 

Que histórias ou exemplos você poderia compartilhar que representem a força dos vínculos construídos pela adoção? João vivia no acolhimento há vários anos, conseguiu ser apadrinhado por um jovem casal, que até então não tinha intenção de adotar. Esse casal levava João para passeios em lugares que ele nunca tinha visitado. A equipe do acolhimento dizia que João tinha uma deficiência intelectual que o impedia de ler e escrever. Com a chegada da pandemia, o juiz da comarca questionou os padrinhos se poderiam ficar com o afilhado durante aquele período difícil, pois o acolhimento teria que manter um número pequeno de crianças, conforme orientação da saúde. Foi assim que João com seus 13 anos de idade e na condição de analfabeto, passou a viver provisoriamente com o casal. Os padrinhos que eram professores, sem grandes pretensões, começaram a ensinar o alfabeto à João e no final de apenas três meses, para surpresa do casal, o afilhado estava alfabetizado. Os meses continuaram passando e os vínculos entre padrinhos e afilhado foram se fortalecendo a cada dia, até que ao final da pandemia, os técnicos do Fórum informam que João já poderia retornar ao acolhimento. Como abrir mão de um afilhado que se transformou um filho? Isso é impossível. Com a concordância de João, o casal solicitou a adoção e pela falta de outros pretendentes e pela vinculação afetiva constatada, transcorreu de forma muito rápida e João aos 14 anos ganhou o lugar de filho único. Os pais continuaram investindo e acreditando no potencial de João e descobriram seu enorme talento nas artes, principalmente na pintura. Hoje João conta com 19 anos de idade, vive feliz com os pais, estuda e realiza trabalhos de pintura artística.

Fora de Santo André, existem outros grupos de apoio a quem deseja adotar? No Brasil existem aproximadamente 260 Grupos de Apoio à Adoção e o estado de São Paulo concentra aproximadamente 62).

Para saber mais, entre no site www.feasa.org.br ou no Instagram @gaalacosdeternura.

Reportagem: Fernando Aires. Foto: Divulgação.

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